1.
Desponta, do traçado, o venábulo quente, Disparado energia potente e brutal, Atravessado no âmago do ser vivente, Entre raio vivífico e força fatal. Rebenta nova rês, uma rubra nascente; Rasgo de primogênito em corte ferrenho. Encarna-se uma fonte do ser muriente, Estilhaços de porta por fogoso cenho. Com o golpe estrondoso de misericórdia, Tudo que antes dormia desperta de vez. É pretérito o tempo de sono e concórdia: Hora de sim ou não — está morto o talvez.
2.
Apazigua, boa mulher, teu marido e faze cama De folhagens e sobejas flores, para que assim Pese sobre esse terreno, ele envolto pelo aroma Desses seios perfumados muito mais que um jasmim. Dispõe para ele teus lábios, que sejam o descanso Do seu corpo que, lassado, oferta-se à maciez Dessa pele, campo próprio do seu pisado manso, Abundante em mil nascentes de gozo em lividez. Cobre a enseada do ventre, revelada tua fronte; Desvela, no velo d’olho, teu invite ao varão. Bom e firme o seu desejo, essa fome de bisonte, De ser o mestre de festa no teu belo salão.
3.
Colibri pousou, saiu; Tiniu aqui, ali solhou – disparou. Voltou, e me inquiriu “viu? Já colibri tudo que é canto que o Senhor do Céu mandou E sei que ainda posso tanto!”. Colibri semeia à frente As respostas, as quais lhes ofereço, Polvilho povoado à corrente; Depois retorna jogral, Sempre volitando esboço Das cenas deste quintal. Colibri, colibri, librou Que ele é libre para ir E eu, que já sei que não sou — Não tenho nem alas, nem levideza — Só dou conta para me distrair Dessa sua elegante ligeireza. Não te sigo, colibri, nem pensar, Na tua gira, ainda passeirinha, Mas reverte se eu chamar, Pois sou meio tua irmã: Tenho uma alma passarinha, E consonam tua graça e a minha, talismã. Colibri não conhece mesmo nada Que lhe prive tiro-liro dali; Se forçado a uma bruta parada, Retoma angulando, veloz. A vida toda deste colibri É volar, como adeja minha voz: Colibri! Colibri! Meu colibri!
4.
Sinto como está longe o doce lar, Seu conselho macio de me derramar Pelo seu assoalho, caminhar No seu tenro rossio, de me semear... Sinto que tanto cansa meu vagar Pelo lado de fora, todo amargor; Aspereza de inteiro me entregar Ao que não é meu — pois fiz mau penhor. Meu quarto fumegava seu calor; Aqui, a ventania do que é tão dissenso, Alheio ao que dou real valor, Já selado em memória, porque adenso. Só minha larga casa, em meia luz, Pode acolher com seu abraço bom, Como uma mãe que seu filho conduz Até si mesmo — desejo este dom.
5.
Entremontes anelados, além; Rochas douradas remendando o Sol Com vestidos de púrpura, que obtêm Imaginando ser, assim, farol; As baixas cristas, feitas para a vista Ganhando honrarias pelas aves; A calma marcha flúvea e batista, Os seus bancos, também as suas naves; Todo escolho ou abrolho dos trajetos, Descidas e subidas das encostas; Veios arbóreos elevados, retos; Feras bravias em tensas ripostas; Tudo sob uma luz e único instante, Daqui aceso, além do horizonte, Como tela de tinta fulgurante, E em cada direção à qual se aponte, É do torrão, da suma, do uno epíteto — Cujo valor eu nunca negarei, Por manifesto, mesmo a um abjeto —, O domínio indiviso de um só Rei.
6.
Deplorável súdito! Chegado o circo ao terreiro, Num repente, ergue o madeiro, E lança a lona; o expedito Ergue um palco nunca visto Neste povoado — e o derradeiro… Maravilhas faz à vista — Por contrato sigiloso — O Mágico, mais o honroso, E disciplinado artista: Assim é o Malabarista! E tem ainda o Farsante jocoso… Respeitado e púdico! Apresenta-se o ano inteiro O Burguês, todo rendeiro; Ilusiona um truque ao público, Conquista, em pelejo lúdico O seu dosado e apertado dinheiro. Produz ordenada lista; Macaqueia igual palhaço O Fidalgo — que é ricaço! Equilíbrio de analista, Salta e pega — pragmatista! E a filha dele assestando o Balaço… — O Bufão vai e tece uma novidade Com graça de um artesão. Cruzando o rapaz feito munição E a Herdeira, a cara-metade. Murmura baixo o povo da cidade: “O Burguês não vai gostar disso, não!” — Tirada a lona do mastro Contorce a trupe à maneira De deixar a vila inteira Contemplando a carreira por balastro. Jura de morte se expande em alastro. O Abonado se atém quando o circo poeira.
7.
Despedida da luz, noite em chegada, Algo em tudo fica bem diferente: A cor que nos banha é bem mais dourada, Talha texturas de trama na gente. Face cunhada, outra face escondida; Paisagem que cindida remete o momento Dos encontros dos díspares, um de saída Buscando no outro, como um sacramento. Quando os meus olhos e o claro olhar dela Se descobrem permutados assim, Estando eu um pouco contido naquela E aquela restando dentro de mim, O mundo aparece — e desaparece — Recebo e dou meu florim. Transas de sol que emudece.
8.
Ninguém Diz o que me vai aos olhos; Abetos Embuçam pelos folhos, Aquém Do dado à treva crua. Discreto. Estará farejando por mim? O que estaria oculto, assim? Quem é a penumbra, avultando por lá? Por que não distingo o tumulto? Que espécie de coisa fará? Vagam por aqui Cortinas mortas; Nada há de intervir Das crostas tortas. Inspeciona por largos, extensos segundos, Chegando ao meu quarto, embaçando a janela. Alguém pode ver, espiando dos fundos Da noite, como eu vejo a sua cautela De branco dos olhos entre escuridão, Varrendo este abrigo do teto ao chão, Tentando qual’coisa, fisgando o arrepio, Entrando hediondo, no orgasmo do ardil, Escoando no espaço por má direção, Sondando os meus braços, tocando a minha mão?
9.
Vai pelos plainos, galhardo profeta; Monta dos montes travessa, florão ; Nunca contenha teu passo e tua meta Se o momento dispensa teu serão. Rosas e cardos te formam, caminha. Uma outra sé requisita teu nome. Ungida a testa, cingida a bainha, Sibila: sobe esta cinza que dorme. Se teu trote dar encontro de gente Entre sólidas sombras comprimida, Alcança seu Coração refulgente, Professa a Esperança que está escondida. Galopadas de cadência mundana, Reverberam a Palavra que vem Da hora sobre o tempo soberana, A qual reina sobre todos os séculos, Amém.
10.
Filho, Esta vida é bonita de verdade; Verá, enquanto caminha pela idade, Como é bom contemplar o velho trilho. Só me importa dizer, por ser agora, Que tal satisfação nunca é por nada Dessa nossa mania equivocada De tomar a alegria por aurora. Serão alegres muitos dos seus anos Mais aparentemente complicados. Os dias trarão sempre desagrados, Mas isto não faz parte destes planos? Lembre a grandiosa e sã, nossa figueira, A aventura que foi subir seus galhos; Veja, nessa sua imagem, os trabalhos De tirar desta vida o que se queira. Como era brincadeira, muito embora Tantos impedimentos naturais, As resistências podem ser normais Se vistas assim, por olhos de fora. E veja a robustez da planta em foco! Forçada pelos anos sem pender Seu tronco, ganhou casca, viu descer A profunda raiz, em firme bloco. Muito mais valor têm os seus entalhos Que peles alisadas por regalos. Abrindo-se ao celeste, esconde os calos, Merecendo o descanso em chacoalhos. Está para ser vista, até escalada… E permanecerá mais esta etapa, Transmitida a você, que não se escapa De me continuar nesta jornada.
11.
— O que cantam essas gentes? — Um Juiz intransigente em perverso tribunal Cercado dos aparelhos ligados por sinal De um báculo de mitral, a punir irreverentes Com o mais breve sinal. — E o que foi que aconteceu? — Julgando um tal delinqüente famoso da cidade, Irou-se, rasgou, mordeu, esqueceu da solenidade E depois nunca foi visto, parece que morreu Ou perdeu sua sanidade. — Como foi que chegou nisso? — O bandido foi insubmisso diante da sua excelência: Entrou lá vestindo toga, fazendo reverência… Censurando essa insolência, ele quis mostrar serviço, Recebeu nova indecência: “Fui chamado para a corte De um juiz de tanta pompa, Que, pensei, seria a morte Permitir que se interrompa O seu fluxo de fausteza. Ao compor quadro tão sério, Mudo até de natureza, Diferente é vitupério! Meritíssimo, já vede, Aceitado o vosso cargo A potência que se expede Vence o indício de letargo; E se todos reconhecem A cadeira em que sentais, Que é madeira até se esquecem! Vira trono, até algo mais. Assim sendo, eu que não posso E não quero destoar; Isto coça meu pescoço, Já começa a me irritar! Foi culpado quem cosia… Enfim, eu não sou rival Vesti minha fantasia Para vir ao carnaval!” — E o juiz? O que ele fez? — Ordenou, com aridez, que prendessem o sujeito; Recebeu, porém, mudez e se enfureceu de um jeito… Só não mais do que seria, mantinha a lucidez; Cresceria seu despeito. — E então? Qual a explicação? — Alguém disse: “Não podemos fazer prender nenhum Que se veste e se comporta no modo que é comum A essa vossa autoridade, um de nós sem distinção Que não os panos, um comum.” — Que mais foi dito no caso? — “Se ele deve ser punido por uma usurpação, Como vós escaparíeis de igual condenação?” Ainda: “Não te salvaria instrução ante o descaso.” Não restou de apelação. — Quem está por lá, a cantar? — É o coral dos anjos bons, a entoar celestiais Melodias, pelas quais narram dons banhando os mortais, Nós, andantes sempre iguais, a viver de se gastar Entre dois níveis cabais. — Sobre mim, quem sou e serei? — És bom conselho ao senhor meu, a quem eu quis, no dia, Condenar, e condenei, enfim, a mim mesmo à tardia Punição de te ver, no último instante, feito rei Coroado na abadia.
12.
A marujada sabe levar seu navio, Levar o seu navio a vela por mar baldio, Sabendo o sal que vem pela viragem certa Do bafejo em passagem, jazendo o pavio Da verga, em pez coberta. O que ela faz se deseja chegar alhures? Nada, pois chegar é do mar e mar é algures. Se há derrota e voga, só resta precisar Se deriva ou remada; vai-se pelo augure Entre orçar ou arribar. O lugar do manejo de um velho marujo É o marulho brandido qual um ruído sujo Decorrido da calmaria desmanchada, Habitante inerente às esferas do bojo — Sutileza singrada. Essa nota ele tange até o vento tragar Angras, onde mil pés um peso enfim baixar, Então calçar o solo que é absoluto ao empíreo. Se está bom o calado, só resta esperar Pelo içar do círio.

